“Faturamos 515 milhões de euros e exportamos mais de 70% do que produzimos em Portugal”

Foi criada em 1912, no Porto, por dois sócios com os apelidos Barbosa e Almeida, respetivamente, para comercializar garrafas. Em 1930 era já uma fábrica de vidro e adotava a inovadora semiautomação. Hoje, a BA Vidro continua a apostar em inovação e tecnologia – nelas investindo 13% das suas vendas anuais. E o seu presidente, Carlos Moreira da Silva, aposta a sua estratégia de crescimento na expansão

 

Entrevista conduzida por António Perez Metelo

 

27903344Carlos Moreira da Silva. É o presidente do Conselho de Administração da Barbosa & Almeida. Sei que não gosta de exagerar a dimensão dessa empresa, sobretudo quando comparada com concorrentes estrangeiros, mas não pode ser menosprezado o facto de estar com fábricas em Portugal, em Espanha, na Polónia e ter já um volume de vendas de 515 milhões de euros. Suponho que, para se chegar a uma dimensão destas, não é de um dia para o outro nem de um ano para o outro. Pode traçar-nos um pouco a história deste crescimento e desta internacionalização da empresa?
Muito bem. É com muito gosto. A BA, em 1998, que foi quando a Sonae entrou no capital da empresa, tinha uma faturação à volta de 80 milhões de euros. Foi-se desenvolvendo, primeiro com uma fábrica, feita de raiz, em Espanha – e que foi o princípio da estratégia ibérica –, e depois por aquisições. O setor do vidro de embalagem é um setor maduro, em que é muito difícil fazer crescimento orgânico.

Portanto, arrancar por dentro. Crescer por dentro.
Exatamente. É preciso fazer aquisições.

Ou seja, tudo já está, praticamente, instalado, já existe…
É preciso ir renovando, com a tecnologia mas sem grandes aumentos de capacidade, porque o mercado, na Europa, não cresce. É onde nós estamos.

Claro.
E, portanto, foi assim que fomos crescendo. Temos feito outras tentativas, algumas delas malsucedidas.

Noutros países?
Noutros países. Mas, entretanto, fomos fazendo algumas e é assim que temos crescido. Portanto, hoje, como disse, faturamos 515 milhões de euros; exportamos, de Portugal, mais de 70% do que produzimos em Portugal, e o nosso país é um mercado relativamente pequeno para a empresa.

O que se tornou evidentemente claro desde a primeira hora, não é?
É, embora Portugal, sendo um país exportador de vinho e de alguns produtos alimentares, seja um consumidor que exporta também embalagens de vidro e, portanto, tem, desse ponto de vista, um mérito especial.

O que me está a dizer é que o mercado interno também tem potencial para crescer, não pode ser desprezado?
Exatamente. Aliás, o caso de Angola é um caso muito importante, quer para os cervejeiros quer para o vinho.

Quando fala de algumas outras oportunidades ou tentativas que não tiveram tanto êxito, está a falar noutros continentes ou há uma razão especial para terem, neste ramo de negócio, as fábricas situadas em países europeus? É para trabalharem para o mercado europeu, especificamente? O que é que se passa nos outros continentes? Não têm interesse para a empresa?
Claro que sim. E nós temos tentado também fazer aquisições fora da Europa. Ainda não foi possível,  mas será um dia.

Mas há a ideia de que, fora da Europa, o mercado pode expandir.
Claro. A maior parte dos mercados não europeus…

A minha pergunta resulta do meu desconhecimento deste ramo, sobre onde estão os grandes produtores e até que ponto é que a procura está satisfeita, a nível mundial.
O desenvolvimento da embalagem de vidro tem muito que ver com duas coisas: o crescimento da classe média e o crescimento da distribuição estruturada. Portanto, os países da América Latina são países com um crescimento potencial alto, em África…

Está-se a criar classe média na América latina, exatamente.
Exatamente. No Sul de África também, na África Austral. Enfim, embora com mais solavancos.

E na imensa Ásia.
E na imensa Ásia. Mas a Ásia… Enfim, os nossos concorrentes que têm ido para lá não se têm dado bem. Até agora não se têm dado bem. Portanto, precisamos de aprender um bocado mais sobre esse mercado.

E não contemplaram a possibilidade de, além do vidro, produzirem embalagens de outro tipo?
Já. Já passámos por essa fase e arrependemo-nos. Voltámos para trás.

O que é que o vidro tem de especial que garante este crescimento? Porque, feitas as contas assim de cabeça, em 17 anos mais do que multiplicaram por sete o volume de vendas.
Certo.

O que é um crescimento apreciável. Muito bom. Só queria dizer que aqui dão trabalho a cerca de 2200 pessoas.
Certo.

É uma coisa importante. O que é que o vidro tem de especial?
O vidro tem duas coisas especiais, mas eu serei suspeito para dizer isto. Primeiro, é um material absolutamente inerte e, portanto, dá o melhor tratamento aos alimentos que contém, mais do que qualquer um outro.

Embora eu julgue saber que, por exemplo, para os azeites aquelas embalagens não devem estar expostas ao sol, não é verdade?
Depende da cor da garrafa do azeite, porque tem cores próprias.

27920335Pois, justamente, as escurecidas estão protegidas em relação a isso.
Exatamente. Mas é um material muito amigo do ambiente: é 100% reciclável e é um número infinito de vezes reciclável. Portanto, em nenhuma fase da sua recuperação perde qualquer qualidade. Isto, nesse ponto de vista, é um material único, portanto, além de ser nobre no sentido em que os produtos embalados em vidro têm uma melhor aparência do que – enfim, eu não quero referir os meus concorrentes – os embalados noutros materiais.

Basta ver, por exemplo, o vinho em cartão versus o vinho em garrafa.
Eu não quero estar a ser “difamador” dos meus concorrentes.

Ser menos elegante com a concorrência. Exatamente.
Mas, enfim, há uma diferença.

Há uma diferença visível, sim.
Embora isso, que se chama bag-in-box, que é o vinho em cartão e que tem um desenvolvimento bastante grande nos países do Norte da Europa, tem os seus méritos, embora não tenha o glamour e a lógica de qualidade que tem uma garrafa de vinho.

Voltando à minha questão: o mercado europeu tem potencial de crescimento?
Cresce muito pouco. Cresce, em média, 1% a 2% ao ano.

E nestes últimos anos, com as descidas, por exemplo, brutais em Espanha e noutros países, a empresa ressentiu-se ou não?
Não. Só houve um ano em que nós não tivemos crescimento na Península Ibérica.

2009?
Foi 2010.

Por consequência da grande recessão mundial de 2009.
Houve, de facto, um abrandamento muito grande do consumo e, nesse ano, não crescemos. Mas também não diminuímos. Todos os outros anos temos crescido. Eu julgo que isto é menos o nosso mérito e mais o mérito dos nossos clientes, que exportam mais. E, portanto, ao exportar mais, acabaram por crescer as necessidades.

Pois. E, no fundo, resistiram ao ciclo negativo, não é?
Exatamente. Embora nós também tenhamos passado… Suponho que em 2008 tínhamos 3% de exportações – e nós chamamos exportações a tudo aquilo que sai dos países onde fabricamos – e hoje temos mais de 20%. Portanto, nós também crescemos em exportações.

Quer dizer, a partir dos pontos de fabricação, chamam exportação ao que não é para os mercados internos nacionais.
Exatamente.

Outra coisa. Agora estamos muito mal uns com os outros, por razões geopolíticas, mas, do ponto de vista comercial e do ponto de vista deste ramo de negócio, a Rússia não é um mercado atraente?
Das fábricas da Polónia…

Porque eu imagino que haja uma procura enorme de embalagens de vidro.
Mas há sobrecapacidade. Na Rússia há sobrecapacidade. Nós exportávamos muito, da Polónia – sobretudo garrafas de vodca – para a Rússia, onde hoje não há importação nenhuma. Estão fechados.

E, portanto, estão a ser apanhados por este confronto recíproco, não é?
Sim.

27920328Em todo este processo de expansão e de internacionalização, até que ponto é que contaram com capitais próprios que puderam libertar – portanto, meios para reinvestir – e sustentar essa expansão e até que ponto é que tiveram de contar com empréstimos da banca? Qual é a relação entre este ramo da economia real e a economia financeira?
Ao longo destes 15 anos, nós tivemos fases diferentes de financiamento da empresa. Houve financiamento por capitais próprios – lembro-me de que, quando comprámos uma empresa em Espanha, fizemos um aumento de capital; portanto, capitais próprios – e financiámos a empresa com dívida também. Quando foi a crise de 2008-2009, fomos diminuindo progressivamente o nível de endividamento. Hoje temos um nível de endividamento demasiado baixo.

Porque o acesso ao crédito, na altura, também estava mais restringido. Para vocês não?
Nós nunca sentimos muito a restrição do crédito. O que sentimos, sim, foi a incerteza em relação ao crédito. Repare, os nossos investimentos são investimentos que duram dez anos.

Duram dez anos, quer dizer, demoram dez anos até produzirem o efeito total.
Não. Até precisarem de ser reconstruídos.

É o ciclo de vida.
É o ciclo de vida. E, portanto, precisamos de ter financiamento que acompanhe o ciclo do investimento. E, a partir de 2009, houve ali uns anos muito difíceis em que não havia financiamento a longo prazo, o mercado estava praticamente fechado, e aí nós absorvemos capital, com menor distribuição de dividendos, e aumentámos, de facto, capital, os capitais próprios, para financiar mais. Hoje temos um nível de dívida que é demasiado baixo para ser saudável.

Demasiado baixo? Não me quer dizer quanto?
Digo-lhe. Está no relatório e contas. Nós temos 1,7 vezes EBITDA, se não me engano. Portanto, o que quer dizer que, em teoria, podemos pagar a dívida toda em 1,7 anos. Quando temos um ciclo que é de dez a 13 anos, está a ver que isto não se ajusta.

Claro. Mas agora não há dificuldade de acesso ao crédito.
Não há dificuldade nenhuma de acesso ao crédito.

Admite que agora estão centrados sempre numa melhoria, numa inovação tecnológica nas vossas unidades? É para isso que precisam, porventura, de crédito, para irem introduzindo técnicas e formas de produção cada vez mais avançadas e de qualidade? Será isso?
É exatamente isso. Só gostava de dar um número, porque enquadra essa situação. Nós investimos, em média, 13% das nossas vendas todos os anos. Portanto, 13% são investimentos feitos em fornos, em máquinas de moldar…

Estão quase ao nível do investimento do país em relação ao produto.
Isso não era mau! E, portanto, temos uma necessidade de financiamento permanente. E não é razoável não ter mais nível de financiamento, mas as opções são dos acionistas, portanto… lá chegaremos.

Uma última questão, aqui neste ciclo de Economia Ibérica patrocinado pelo Popular. Quer dizer alguma coisa, especificamente para Espanha e o mercado ibérico, sobre a sua relação com os bancos que operam convosco?
Eu julgo que nós temos relações comerciais ativas com todos os bancos ibéricos. E não só ibéricos. Nós sempre tivemos uma filosofia de acordos bilaterais com os bancos para garantir a competitividade. E os bancos espanhóis, em particular, são bancos muito importantes para nós. Nós temos mais de 50% das nossas vendas em Espanha, logo são bancos muito, muito importantes.

Qual é o próximo objetivo para a BA Vidro?
O próximo objetivo para a BA é crescer e ser melhor. Ser melhor, em particular, na capacidade de inovar. Portanto, nós temos a nossa estratégia centrada na inovação de produto e de processo. Só para ter uma ideia, isto parece uma indústria antiga, mas nós desenvolvemos oito produtos por semana. Nós pomos no mercado oito produtos novos por semana, ao longo de todo o ano. Portanto, isto dá-lhe uma ideia do esforço de inovação que temos tido e que é uma das alavancas mais importantes do nosso crescimento.