“O intercâmbio comercial ibérico, hoje em dia, varia entre 25 e 28 mil milhões de euros”

Em pouco mais de década e meia os fluxos comerciais entre Portugal e Espanha mais do que sextuplicaram, em parte por intermédio da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Espanhola (CCILE). Para o presidente da CCILE, Enrique Santos, a estratégia a seguir é simples: Espanha é a extensão natural do mercado português e a aposta tem de ser no sentido de intensificar o comércio bilateral

 

Entrevista conduzida por António Perez Metelo

 

Lisboa,18/09/2015- Entrevista Banco Popular ,DN , a Enrique Santos da CCILE. (Paulo Spranger/ Global Imagens)Lisboa,18/09/2015- Entrevista Banco Popular ,DN , a Enrique Santos da CCILE. (Paulo Spranger/ Global Imagens)

Enrique Santos, faça-me um ponto de situação do que o que se está a passar na Câmara do Comércio e Indústria Luso-Espanhola lhe diz sobre o momento económico em Portugal e Espanha.
Bem, o que eu posso dizer, para começar, é que há 45 anos eu não estava ligado à câmara mas sei que os dois países estavam de costas voltadas. E, pouco a pouco, foram-se virando e agora estão a olhar um para o outro e cada vez a olhar mais, porque cada vez é mais importante. Um país necessita do outro.

Sim. Eu até li que, em 1975, a câmara ajudou à convertibilidade da peseta, quer dizer, ao [seu] uso nos negócios.
Exatamente. Nós tivemos um papel [relevante], sim.

Isso é um exemplo de como, antes, isso não acontecia.
Era, desde logo uma diferença tão grande, especialmente também no intercâmbio comercial. O intercâmbio comercial entre os dois países, hoje em dia, varia entre 25 e 28 mil milhões de euros. Há pouco mais de 14, 15 anos não era mais do que três, quatro, cinco mil milhões de euros. Portanto, houve um crescimento incrível. E cada vez Portugal necessita mais de Espanha para a extensão do seu mercado, ao passo que a Espanha já não tem assim tão grande necessidade de Portugal, porque tem outro vizinho. Portugal só tem um vizinho. E, no caso de Espanha, Portugal é, obviamente, também uma extensão de mercado. Um mercado fácil, porque está muito perto.

Mas é um sexto, em termos de poder de compra.
Exatamente.

A população não é tanto mas, em poder de compra, Espanha são seis Portugais, digamos assim.
Nós costumamos dizer que em Espanha tudo é quatro ou cinco vezes mais do que em Portugal. É a população, é a área geográfica, é o PIB… Enfim, é uma série de [fatores].

Mas o PIB per capita até é um bocadinho mais.
Sim. A única coisa [diferente] é a taxa de desemprego: não é quatro ou cinco vezes mais lá mas é o dobro.

Em termos de empresas que estão associadas, esta crise afetou um número de pessoas que voluntariamente aderem a estas organizações. O que é que se passou com esta câmara?
Bem, no nosso caso não foram muitas as empresas – estou a falar das empresas espanholas – que desistiram de Portugal. Mas, nos últimos meses, verificou-se, por exemplo, a saída destes supermercados ou centros comerciais Dolce Vita, que eram do Chamartín, um grupo espanhol que os vendeu a uma holding americana; a Caja Madrid, a Caja Duero, do setor financeiro, que saiu de Portugal. Agora vemos que há um banco espanhol que está a comprar o Barclays e também na área de ginásios há uns investimentos importantes de empresas espanholas em Portugal.

Basta dizer isso para vermos que há um leque muito diversificado de setores que aderem a esta organização.
Sem dúvida, sem dúvida.

Fale-nos um bocadinho disso.
Nós fizemos um estudo há pouco mais de um ano da presença de empresas espanholas em Portugal. Soubemos que havia cerca de 1600, 1700 empresas de capital espanhol em Portugal, identificámos 1200, como se costuma dizer em espanhol, com nombre e apellidos, quer dizer, o volume de negócios, o tipo de negócio, a direção, etc. e etc. Identificámos pouco mais de 1200 e a maior parte dessas empresas são nossas associadas, estão ligadas à câmara. E, naturalmente, as grandes empresas espanholas, os grandes bancos estão todos na câmara e não só, estão todos nos órgãos sociais da câmara, na direção, na assembleia geral, no conselho fiscal. Portanto, há uma presença muito importante, na câmara, dessas empresas.

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E quais são os problemas que essas empresas vos põem, como entidade que bem conhece este país e as suas instituições?
Não há muitas queixas. Em Portugal, talvez a única queixa que, às vezes, apresentam é que a lei laboral devia ser mais elástica, para não usar outra expressão. Devia haver mais facilidade, especialmente quando é preciso despedir alguém. É muito difícil.

Está a referir-se ao despedimento individual, não é?
Despedimento individual, sim. Porque, no coletivo, não temos experiência de empresas que tiveram de despedir coletivos de empregados. Portanto, normalmente, esse é o único problema que, às vezes, aparece. Mas, de uma forma geral, todas as grandes empresas espanholas e as outras empresas estão neste mercado com grande satisfação.

E persistência? Ou seja, a pergunta é: não é “toca e foge”? As que vêm ficam?
Não. Ainda no outro dia ouvimos a falar a presidente do Grupo Santander a dizer que quer ampliar o negócio do banco em Portugal. Já ouvimos falar, também, que o El Corte Inglés tem necessidade e quer ampliar os seus negócios e quer ir para outras zonas.

Isso é o paradigma, é o padrão que vem das vossas associadas? Há uma grande estabilidade de vinda para cá e para ficar cá?
Nas grandes empresas, sim. Nas grandes empresas espanholas esse é o padrão, de permanência. E acreditam no mercado e estão cá para crescer.

E as pequenas e médias empresas estão associadas independentemente ou parte da constelação à volta de grandes empresas? Como é que pode caracterizar as PME?
As PME, a que nós chamamos PyME, têm uma diversificação muito grande de atuação em Portugal. Muitas delas atuam individualmente. Eu creio que a maioria tem os seus mercados, tem nichos.

Portanto, são empresas muito especializadas?
Bom, eu diria que há um pouco de tudo, em relação às PyME. Eu posso considerar, por exemplo, até nas PyMes – já há pouco falei nos ginásios -, até nos próprios ginásios, [há] centros de formação também, pequenos centros de formação. Enfim, é uma grande variedade de atividade neste mercado.

E associações? Passa por esta câmara que haja associações, partenariados, joint ventures entre espanholas e portuguesas ou esse movimento não é muito importante ainda?
Não, é importante. Nós temos uma relação muito especial com a câmara de comércio portuguesa em Madrid, que é a Câmara Hispano–Portuguesa.

29071211São os irmãos.
Sim, é uma câmara irmã. Essa é uma câmara considerada portuguesa e nós somos uma câmara oficial de Espanha, com o estatuto de câmara oficial de Espanha em Portugal. Embora o nome seja Câmara de Comércio e Indústria Luso-Espanhola, e muito bem, porque nós tomamos conta, entre aspas, de tudo o que acontece a nível empresarial e comercial entre os dois países. Portanto, o relacionamento é com essa câmara irmã. E temos, naturalmente, aqui com as associações – a Associação Industrial Portuguesa -, com as câmaras de comércio em Espanha, com as várias câmaras de comércio que há em todas as cidades – em Barcelona, em Madrid, Vigo, etc. -, temos um relacionamento muito estreito. E é necessário para apoiar as empresas, também, dessas associações.

Ora, justamente, falou-me de várias cidades. Efetivamente, a Espanha agrupa regiões e nacionalidades muito diversas e muito características. E nós, dá-me ideia, não estamos suficientemente sensibilizados, por exemplo, para o que se está a passar na Catalunha e para a grande decisão para que o povo catalão é chamado a pronunciar-se a 27 de setembro. Seguramente há de ser muito importante.
Muito. É muito importante não só para Espanha como é importante para Portugal.

E para a Europa, no seu conjunto.
E para a Europa. Mas, por exemplo, em relação a Portugal, a Catalunha é a região de Espanha que mais vende a Portugal. Mas com uma diferença importante.

E também a que mais importa ou não?
É a segunda. A que mais importa é a Galiza. Então, a região da Catalunha está em primeiro lugar no comércio global, entre compras e vendas.

Porque é o principal fornecedor.
É o principal fornecedor e é o segundo principal comprador.

Mas não acha curioso que nós, em Portugal, estejamos tão alheados desse dinamismo?
Acho muito curioso. Está tudo muito preocupado com o que se passa na Grécia e com o Syriza e…

Quando isto é uma coisa que nos pode afetar muito diretamente.
Exatamente. Pode afetar porque, se não houver paz e tranquilidade em Espanha, isso pode, sem dúvida, afetar a economia em Portugal. Isso é um problema não só para Espanha mas também para Portugal.

É uma realidade pouco conhecida. Também o desenvolvimento não é de um dia para o outro, não é?
Aqui, quando se fala em Catalunha e em Barcelona falam no Messi e mais nada. [Risos]. E pouco mais.

Que perspetivas tem daqui para a frente? Com os problemas todos que circundam e que entram no espaço europeu, tudo aquilo que nós sabemos, aquilo que em Bruxelas não se consegue fazer – é tudo muito lento, muito difícil de conseguir -, o que é que prevê para os próximos anos em termos de relacionamento das empresas portuguesas em Espanha, espanholas em Portugal e o comércio entre elas?
O que eu posso dizer é que as vendas portuguesas a Espanha, neste ano, no primeiro semestre, aumentaram cerca de 10% em relação ao mesmo período do ano passado.

Mas tinham tido uma redução em 2011-2012.
Não. Em 2010 houve uma pequena redução mas depois começou a crescer novamente, em 2011, 2012, 2013, 2014. E neste semestre é quase 10% superior ao 1.º semestre do ano passado.

Portanto, está a acelerar.
Está a acelerar. Especialmente as vendas portuguesas a Espanha.

E em que setor? Têm algum setor especial que se destaque ou não?
Os principais, os dois itens importantes, os primeiros, são o setor automóvel e os óleos, lubrificantes e…

Produtos petrolíferos.29024257
Produtos petrolíferos, sim. Mas há uma coisa muito importante, que é o quarto produto que Portugal mais vende a Espanha, que é o setor da confeção têxtil. Isso é extremamente importante. São volumes importantíssimos.

E houve uma grande reconversão, em Portugal, nesse setor.
Exatamente. E há dois ou três grandes clientes em Espanha que compram a confeção, que é o grupo da Zara, é o El Corte Inglés… Enfim, esses são os grandes compradores.

E esta tendência tão pujante, no primeiro semestre, acha que vai continuar ou vai abrandar um pouco? Qual é a sua perspetiva, pelo que conhece também da economia em Espanha?
A economia em Espanha está a bastante melhor do que em Portugal. E aumentou, inclusivamente, o poder de consumo.

Sim, está a crescer com mais força, para já.
Com mais força em Espanha. A minha previsão é: havendo paz política em Espanha – que sempre houve, pelo menos nos últimos anos, depois da revolução -, eu acho que a tendência é para continuar o crescimento.

E qual é o papel dos bancos? Porque fala de comércio e indústria, não me fala propriamente da banca mas já me fez referência a empresas bancárias. Qual é o papel da banca neste relacionamento económico?
A banca é importantíssima, porque a banca apoia os créditos às empresas.

E já há mais créditos?
Há, sim. Já se nota. Os empresários dizem-nos que estão a ter mais apoio dos bancos. Não só dos bancos espanhóis mas, obviamente, também dos bancos portugueses.

E dizem-lhe também, num caso e noutro, que as taxas de juro estão a baixar?
As taxas de juro – isso também é um facto – estão a baixar.

Estão a alinhar com o resto da Europa.
Exatamente. Tudo isso ajuda ao desenvolvimento da economia e das empresas, em particular.

E, aí, o dinamismo do setor financeiro vai ajudar, não é?
Sem dúvida. Portanto, eu tenho uma visão otimista do futuro, vá lá, a curto, médio prazo.

Tradicionalmente, os jornalistas, quando havia situações de dificuldades, diziam: “Sr. empresário ou Sr. ministro, dê-nos uma palavra de esperança.” Aqui não foi preciso pedir nada porque, de facto, pelo que vejo, está bastante otimista.
Eu estou otimista, aliás, eu sou uma pessoa otimista, sempre fui. Se nós virmos a história, o recorde do intercâmbio tem vindo a crescer. A crescer mas com uma taxa importante.

 

Fotos: Paulo Spranger / Global Imagens
Álvaro Isidoro / Global Imagens