“Somos a 1ª empresa mundial de azeite: movimentamos mais de 200 mil toneladas”

É dona do azeite Oliveira da Serra e do óleo Fula, entre outras marcas reconhecidas. Em 10 anos, a Sovena quadruplicou o seu volume de negócios, que este ano deverá atingir os 1400 milhões de euros. A internacionalização começou por Espanha, saltou para o Brasil e América do Sul, chegou aos EUA e já entrou na China. António Simões, CEO da Sovena, não para: quer novos clientes e novos mercados.

 

Entrevista conduzida por António Perez Metelo

 

29154084Falando do Grupo Sovena, poucas pessoas saberão do que estamos a falar. Mas se falarmos de Oliveira da Serra, de óleo Fula já começam a perceber. Nos meus 35 anos de carreira, nunca entrevistei o líder de uma empresa com uma dimensão que tenha um volume de negócios de 1.400 milhões de euros. É uma dimensão verdadeiramente extraordinária a partir do nosso país, não é?
Sim. A nossa expectativa, em 2015, é fazer 1400 milhões [de euros] de vendas. Efetivamente é isso e é um caminho que começou a ser traçado em 2001. Eu diria que foi quase uma necessidade. Nós constatávamos que 10 milhões de consumidores com pouco… enfim, com o poder de compra que temos, com uma distribuição tão concentrada, não nos permitiriam garantir uma remuneração acionista, a longo prazo, adequada.

 

E saltaram para outra dimensão.
Saltámos. Enfim, fizemos o caminho natural numa internacionalização. Começámos pelo mercado geograficamente mais próximo,  por Espanha. Isto tem um fundamento. Nós, nessa altura, tínhamos um negócio muito forte de óleos em Portugal e já tínhamos um negócio embrionário de azeites. Mas quem quer ter uma operação global de azeite tem de estar em Espanha. Espanha é hoje o primeiro produtor mundial de azeite: representa 60% do mercado mundial de azeite. É um mercado de consumo grande. E, por coincidência, é o mercado geograficamente mais próximo. Na realidade, começámos por criar uma operação ibérica.

 

Portanto, para este produto, a economia ibérica, que é o mote destas entrevistas, é a base.
É a base. E Espanha, para todos os efeitos, é o cerne deste negócio. Encontrámos um ativo interessante, comprámo-lo e, alavancados numa relação já existente com uma das grandes cadeias de distribuição em Espanha, que é a Mercadona – de quem continuamos a ser o principal fornecedor de óleos e azeites -, esta fortaleza na Península Ibérica e este conhecimento que fomos adquirindo do produto e do processo, permitiu-nos iniciar um processo de internacionalização e replicar noutras geografias o que tínhamos feito em Portugal e, depois, em Espanha.

 

Mas aprofundando as raízes e a produção.
Sim. Entretanto, tivemos oportunidade de comprar a marca Andorinha, uma marca portuguesa bem conhecida no Brasil. Foi outro passo nesse processo de internacionalização. Depois, quando começámos a olhar para onde é que estava o consumo de azeite – onde estava a produção já nós sabíamos – mas onde estava o consumo de azeite, o que nos ressalta logo são os Estados Unidos, porque os EUA são o primeiro consumidor não-produtor. Os EUA consomem hoje mais de 300 mil toneladas de azeite e, apesar de tudo, com um per capita muito baixo e com um potencial de crescimento enorme. Tomámos uma participação numa empresa dos EUA.

 

E o peso cada vez maior dos chicanos, provavelmente, liga-se com isto, não é?
Também. Também.

 

Portanto, há um potencial de crescimento muito grande nos Estados Unidos.
Sim, sim. Além disso, o azeite é reconhecidamente uma gordura saudável. Além de que faz parte da dieta mediterrânica.

 

Que está a entrar em todas as latitudes.
Está na moda, de maneira que é alguma coisa que, num mercado como o dos Estados Unidos… Esse foi o passo seguinte. Isso deu-nos uma profundidade muito grande. Hoje os Estados Unidos são o nosso terceiro mercado. Nós, em 2015, vamos faturar mais 250 milhões de dólares nos EUA. Somos o primeiro importador de azeite, em que mantemos uma relação bastante estreita com a principal cadeia de retail, que é o Walmart. Dir-lhe-ia que cerca de 60% do azeite que o Walmart vende é fornecido pela Sovena. Temos boas relações por toda a parte com as principais cadeias de food service e foi um passo muito importante. A partir daí, toda a nossa trajetória tem sido, por um lado, procurar mercados novos, por outro, garantir sourcing. É aí que surge – não é a única razão – mas é aí que surge o projeto de plantação de olival, que hoje é uma peça muito importante da estratégia da Sovena.

 

Que, segundo o que eu li, são 13 milhões de oliveiras.
Sim. São, provavelmente um pouco mais de 13 milhões. São 13 mil hectares de terra bruta, são praticamente 11 mil hectares plantados em Portugal, em Espanha, em Marrocos. Temos uma pequena participação também em dois lagares no Chile e, na realidade, toda a parte de sourcing – toda a parte da cadeia de valor que tem a ver com o abastecimento, portanto, com o sourcing  – é determinante num produto como o azeite. Andamos à procura sempre de duas coisas, partindo do princípio – que é a realidade – de que temos uma infraestrutura produtiva eficiente e que está localizada por forma a maximizar a logística. Procuramos clientes novos e mercados novos, procuramos matéria-prima.

 

A boa matéria para o bom fornecimento.
Exatamente. E é esse o caminho.

 

Dito por si, parece muito simples mas multiplicar por quatro o volume de negócios em 10 anos é o dobro do ritmo de crescimento da economia chinesa; quer dizer, é o dobro da velocidade. Não é um feito vulgar e corriqueiro. A que se deve esta taxa tão exuberante de crescimento?
Nós dizemos que temos oito pilares que justificam o sucesso (permita-me dizê-lo) da Sovena. Somos uma empresa com dimensão – somos, hoje, provavelmente, a primeira empresa mundial de azeite: movimentamos mais de 200 mil toneladas. Isso é importante. Somos uma empresa francamente competitiva: temos cinco infraestruturas industriais que nos permitem colocar produto em qualquer parte do mundo.

 

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Está a referir-se aos lagares.
Estou a referir-me aos lagares e às unidades de embalamento.

 

E muito modernos, porque o lagar que tem em Portugal foi premiado como o melhor do mundo.
Sim, o nosso Lagar do Marmelo, em Ferreira do Alentejo, pela segunda vez foi considerado o melhor lagar do mundo.

 

O que quer dizer que investem muito, também, na inovação e na qualidade.
Esses são outros pilares de que eu ia falar. Por um lado, a inovação, por outro lado a qualidade. O azeite é um produto que tem de ser vendido 100% natural, é um produto que, para além da sua avaliação físico-química, tem avaliação organolética e, realmente, as origens e a qualidade é determinante. Depois, este crescimento todo não teria sido possível sem parcerias. A conclusão a que facilmente chegamos é que não conseguimos fazer tudo sozinhos. E, hoje, no nosso modelo de negócio conseguimos incorporar um conjunto de entidades que são nossas parceiras – desde clientes e, inclusive, concorrentes, fornecedores – e não foi indiferente a todo este crescimento a ajuda e o reconhecimento que as instituições de crédito também nos deram. Além disso, temos um conjunto de pessoas –  nós temos entre 1100 e 1300 colaboradores, depende da época do ano – que trabalham muito, que gostam daquilo que fazem, que sentem o projeto, vestem a camisola e, na realidade, têm ajudado a todo este progresso. E temos acionistas que são resilientes e que têm sabido compreender o projeto e nos têm apoiado. Portanto, eu diria que é deste conjunto que é feito o caminho.

 

Pela trajetória que me descreveu e pelas características do produto, passou um pouco ao lado da crise dos últimos tempos ou não?
Eu diria que nós não parámos. E nos últimos anos crescemos.

 

Porquê?
Nós costumamos dizer, quando falamos entre nós, que este negócio não é um negócio sexy: quer dizer, não tem grandes margens, é um negócio com alguma perspetiva, até, de commodity nalgumas das suas vertentes de negócio. Mas é um negócio com uma capacidade de resiliência muito grande. E a nossa intervenção na cadeia de valor, a nossa dispersão geográfica – porque, ao fim e ao cabo, nós estamos espalhados por vários continentes -, nós conseguimos alisar, portanto… Enfim, temos uma complementaridade muito grande, porque temos um negócio muito importante de azeite mas temos, também, um negócio muito importante de óleos alimentares. Não é global – o azeite é um negócio global; o dos óleos alimentares é um negócio regional, é um negócio ibérico. Posso-lhe dizer que nós somos responsáveis por cerca de 40% dos óleos alimentares que se comercializam na Península Ibérica. Portanto, esta complementaridade de negócio, esta dispersão geográfica e a integração da cadeia de valor, eu penso que ajudaram, efetivamente, a que nós – podemos dizê-lo hoje – passámos este período de 2008-2012 realmente, inclusive, numa lógica de crescimento e de consolidação de negócio.

 

O que faz com que, lá está, comercializem 7% do azeite a nível mundial.
Sim, nós somos responsáveis, realmente, por 7% do mercado a nível mundial.

 

Sei que tem planos… Por exemplo, a China é um mercado que ainda está por abrir, praticamente.
A lógica é aquela que lhe disse há bocado: procura de consumidores, procura de [novos mercados]… Enfim, nós temos uma presença muito forte na Península Ibérica; temos uma presença forte a nível europeu; temos uma presença já forte – uma boa base para crescer – nos Estados Unidos; no Brasil, somos uma referência: somos a segunda marca no Brasil. Gostávamos de criar um projeto, um cluster, em torno do que temos no Brasil, para a América Latina. Juntar a posição de mercado que temos no Brasil, a posição de sourcing que temos no Chile e, ali ao lado, no Chile, no Peru, no México, na Argentina há consumidores. Nós queremos abarcar essa…

 

Exato. Já numa lógica regional.
Mais regional, ligando inclusive sourcing, porque há azeite de boa qualidade no Chile e na Argentina e, até, no Peru. Portanto, essa é uma geografia que, em torno do Brasil, vamos querer desenvolver. Toda a parte da Ásia-Pacífico é uma aposta. A China iniciou-se no consumo do azeite há 10 anos. Hoje é um consumidor pequeno, para a sua dimensão: vale cerca de 80 mil toneladas/ano. Lá em casa também dizemos que, se conseguirmos colocar os chineses a consumir azeite, não há azeite – e é verdade – no mundo para [satisfazer esse mercado].

 

_CLL5399As grandes plantações que, já vi, estão ligadas à sua empresa são sustentáveis e têm em conta todos os fatores ecológicos?
Temos uma avaliação feita por uma entidade externa que diz que  temos, no conjunto, um cuidado – e nós temos fábricas relevantes que são consumidoras; portanto, são negativas do ponto de vista da economia do carbono – mas que os 10 milhões ou os 13 milhões de árvores que temos são altamente positivas e nós temos um balanço positivo, do ponto de vista da Sovena. É evidente que há teorias para defender os dois pontos de vista. Agora, o que nós procuramos é fazer as coisas de uma forma em que minimizemos qualquer impacto do ponto de vista ecológico que as nossas plantações podem ter. Trabalhamos com rega gota-a-gota, toda a parte de fertilização é gerida de forma adequada para não implicar perturbação do ponto de vista do que é a utilização da terra no futuro. Tratamos toda a parte dos caminhos entre plantações de uma forma que é ecológica e estamos bastante satisfeitos com os resultados.

 

Os bancos tiveram um papel importante neste crescimento explosivo? Teve de recorrer muito a eles? Consegue autofinanciamento tão forte que não precise tanto deles para as suas operações?
Este crescimento não é alimentado, não consegue ser alimentado exclusivamente por autofinanciamento. E, na verdade, posso dizê-lo, quer os bancos portugueses, quer os bancos espanhóis têm tido um papel determinante no financiamento de todo este crescimento. E hoje Espanha é o nosso primeiro mercado e em Espanha está a nossa primeira fonte de financiamento e – porque não dizê-lo? – o Banco Popular tem tido um papel determinante neste crescimento e no desenvolvimento da Sovena.

 

E, no conjunto, Portugal é um cantinho pequenino para a Sovena, não é?
Mas é a nossa casa e faz parte dos alicerces do nosso projeto.

 

E sabe-lhe bem voltar a casa, de vez em quando.
Sabe bem voltar a casa e acho que, apesar de tudo, temos devolvido também, à sociedade, aquilo que nos deu. Porque, pelo projeto que temos de desenvolvimento da agricultura portuguesa, pelo projeto que temos no Alqueva e tudo o que temos para fazer aí, os postos de trabalho que temos em Portugal e que temos devolvido à sociedade, enfim, acho que deve ser reconhecido também.

 

Fotos: Reinaldo Rodrigues / Global Imagens e Sovena