“Queremos ver se crescemos, em média, no próximo decénio cerca de 10% ao ano”

Partiu de uma empresa de comercialização de aves, criada em 1875 pela família Santos, e tornou-se, como Grupo Valouro, o maior do setor agroalimentar do país e um dos grandes da Europa. A estratégia de crescimento passou pela integração vertical da produção – desde as rações à avicultura e comercialização de carnes – e pela internacionalização. No radar do seu CEO está a Rússia, Moçambique e Espanha

 

29154068Entrevista conduzida por António Perez Metelo

 

José António dos Santos, um empresário que já está há 50 anos à frente das empresas que, há 25 anos, criaram este Grupo Valouro. Fale-nos do salto para fora: da internacionalização do Grupo Valouro. Quando é que se deu, porquê, qual foi a força que os impeliu?
Começámos há cerca de 46, 47 anos as exportações. Naquela altura para as colónias portuguesas, ou seja, Guiné e Angola. Moçambique não.

Que, na altura, tecnicamente, não eram exportações.
Exatamente.

Mas, de facto, eram.
Eram uma realidade. A partir daí, esse mercado caiu e nós começámos com outras perspetivas…

E era adubos?
Não, não. Era tudo aves. Só aves, carne de aves. Mais concretamente, frangos de exportação. Depois, esse mercado, depois da Independência, ficou… Entretanto, estivemos ali uns anos que não exportámos: o mercado não era muito apetecível para outros países e ficámos sem exportação. Entretanto, o mercado de Angola começou novamente a crescer e nós começámos a exportar novamente para Angola: posso dizer que era quase cerca de um navio por cada mês.

Foi antes ou depois do fim da guerra civil?
Foi antes do fim da guerra civil. Depois, na guerra civil em Angola,  quando houve aquele problema grave em Luanda, nós até mandámos quatro barcos seguidos, de duas em duas semanas, e, porque eles não tinham dinheiro para pagar, mandámos até a crédito. Mas a verdade é que correu bem. A partir daí começámos a exportar não frangos mas outros produtos: pintos para o mercado ibérico, o mercado espanhol, essencialmente.

Alguma região em especial ou Espanha em geral?
Aqui a Extremadura. Eu diria desde Valladolid até lá abaixo a Málaga. É uma zona que nós cobrimos.

De Castela Velha até à Andaluzia.
Exatamente, até à Andaluzia, o que tem corrido muito bem. É difícil de entrar. Não foi fácil porque normalmente Espanha tem de acreditar nos produtos. Mas hoje, felizmente, temos uma posição extraordinária. Eu diria que temos cerca de 6% a 7% do mercado de pintos de Espanha, o que é muito bom. E o que é uma vantagem muito grande para nós porque foi a maneira também de crescermos substancialmente. Entretanto, nasce há cerca de cinco, seis anos um mercado de exportação de ovos para a Europa toda e em especial, também, para fora de portas do mercado comum. Começámos a exportar para a Rússia e para outros dois mercados, que foi a Líbia e o Iraque. Entretanto, dá-se aquela catástrofe nos dois países e viemos embora.

E agora, na Rússia, também estão a sofrer com isso.
Não. Nada.

Não?
Neste momento, não. Neste momento estamos a exportar cada vez mais para a Rússia. E quando digo ovos são ovos de incubação, ovos para fazer os pintainhos – nós, os ovos para comer, não produzimos. E, entretanto, têm aparecido outros mercados naturais: a Ucrânia, a Polónia… Enfim, há vários mercados!

Ou seja, o Leste da Europa.
E na própria França, Bélgica, Holanda, temos lá estado.

ovo2Isso quer dizer que, nos últimos anos, há um impulso para uma maior fatia internacionalizada da sua produção.
Exatamente. Senão, tínhamos diminuído substancialmente [as exportações] porque em 2009/2010 começou a haver uma quebra de consumo bastante grande e acentuada em Portugal.

Foi a crise mundial de 2009.A grande recessão.
Em 2011, 2012, 2013 já se começou a subir bastante. 2014 foi muito bom. E 2015 excecional.

E empresas lá fora, do grupo, existem?
Temos uma fábrica de rações em Espanha. É a única que temos, neste momento.

E qual é o volume de negócios, quantas pessoas emprega, para termos uma noção?
O grupo emprega cerca de 2800 pessoas. O valor de faturação é de cerca de 300 milhões de euros. Passa os 300 – 310, 312 [milhões de euros], por aí.

Eu vi que os resultados do ano passado foram melhores do que os de 2013…
E os deste ano serão, felizmente, muito melhores.

Quais são as expectativas para este e para os próximos anos.
A gente nunca pode falar antes do tempo. Ainda faltam três meses para acabar [o ano] e, às vezes, um mês é suficiente…

Até porque não é político e não gosta de antecipar as boas notícias, não é?
Não. [Risos]. Mas, por aquilo que vai até ao final do mês de setembro, vai ser um ano excecional para nós. Graças às exportações. Não direi no mercado interno. Graças às exportações – bons preços, boas quantidades e isso é muito importante para nós.

E com capacidade de produção, com capacidade de resposta.
Nós temos sempre feito um crescimento na ordem…

E tem capacidade instalada para fazer mais?
Já estamos a fazer. Todos os anos começamos logo a fazer [coisas] a pensar no ano que vem. Já fizemos para 2016 e já estamos a pensar para 2017.

Estão sempre a investir.
Sempre. Sempre. A média de investimentos nunca é menos de oito a dez milhões de euros por ano. Mas este ano é mais.

A situação em Portugal está relativamente estagnada, do ponto de vista do mercado interno?
Não. Tem melhorado bastante, agora.

Mas não tem o impulso de lá de fora, pois não?
Não direi que tem o impulso que teve lá fora mas não está mal. 2015 é um ano excecional, já, no consumo interno.

São conhecidíssimos pela produção de rações, os produtos alimentares – falou dos frangos -, os ovos de incubação, cereais…
Sim, que produzimos.

… para a produção de rações. E agora entraram no negócio dos aerogeradores, de produção de energia. Porquê?
EOLICA S.JULI+âO 011Eu acho que é bom nunca termos todos os ovos num cesto só [risos], como se diz na nossa atividade. E aí há cerca de 13 anos começámos por pedir umas licenças para fazer energia. “O que é que se vai fazer, o que é que não se vai?” E eu disse: “Eh, pá, o que derem. Não tem problema nenhum. A gente tanto faz4 MW como fazemos 40, como fazemos 400. Não temos problemas de crédito, felizmente. De maneira que fazemos o que tivermos.” Deram-nos 44 MW – foi o que nos atribuíram, naquela altura – e andámos cinco anos à espera de ter essa licença. Foi-nos concedida em 2006, 2007.

Foi a aposta do governo anterior…
Do governo de Durão Barroso.

Ainda foi!?
Durão Barroso. Foi ele que desbloqueou isso e foi ele quem atribuiu as licenças.

Então foi 2005
2005? Então, pronto. Mas foi em 2006/2007 que começou a construção. Pronto, fizemos o parque. Foi um bom investimento.

E tiraram partido de toda a licença que tinham? Ou seja, produzem a totalidade.
Sim, sim. 100%.

Isso é importante, do ponto de vista de custos da produção de todo o grupo?
Nós produzimos e vendemos à rede mas tem uma taxa de rentabilidade muito boa.

E com um bom preço.
Claro.

A diversificação de produtos está no seu horizonte ou quer expandir nestas linhas?
Não. Nós estamos, fundamentalmente, nas linhas que temos do passado, por isso, é a linha de aves. Essa é a que temos. Temos toda a gama de aves: patos, perus, codornizes, frangos, galinhas… Temos a linha toda, completa. E nessa é que vamos continuar a apostar.

Agora toda a gente fala de ir lá para fora, de países-alvo: por exemplo, fala-se muito da Colômbia e do Peru. Para si, o que é que faz sentido: aprofundar os laços que tem lá fora ou expandir para outros horizontes?
As duas coisas.

Estão sempre em prospeção para novas coisas?
Estamos em prospeção para novas coisas. Uma das que falou foi a Colômbia: nós estivemos para [investir lá]. Veio cá, até, uma delegação e estavam muito interessados. Fomos contactar, a única coisa que podiam dispensar – pela lei da Colômbia – são 40 hectares. “Muito obrigada, mas 40 hectares, para nós, é zero. Não vale nada!” O mínimo que a gente precisava eram 4000 ou 5000 hectares. Para 40 hectares não merece a pena. É um problema de lei.

Portanto, aí não há resposta.
Não. Agora aqui, na Península Ibérica, vamos fazer um investimento grande. Salvo erro, de cerca de 25 ou 30 milhões de euros, em 2016.

Em Espanha?
Em Espanha, em 2016.

Pode-se saber onde?
Na zona de Balmoral. A meio caminho de Lisboa-Madrid. Onde está a central atómica.

Sim. A Central de Almaraz, não é?
Exatamente.

E o mercado europeu: vê sinais de animação?
Nesta atividade, sim. Bastante. Até porque o per capita, na Europa, é baixo, no consumo de carne de aves. E neste momento está a aumentar. Eu prevejo que a Europa vá crescer, nos próximos anos, a uma média de 6% ao ano.

O que quer dizer que, nos próximos anos, prevê a expansão da atividade do Grupo Valouro pelo impulso da procura europeia, basicamente?
Sim. Vai ser isso. Mas também [pelo] de países terceiros.

Quais são os seus objetivos para os próximos anos?
Com estes investimentos queremos ver se crescemos, em média, no próximo decénio cerca de 10% ao ano.

Um crescimento muito robusto.
É, mas para um grupo como o nosso, um grupo capitalizado, um grupo que não tem problemas de crédito – nunca teve, felizmente, problemas de crédito…

Portanto, não precisa de bancos?
Precisamos sempre. Aliás, quando são investimentos grandes precisamos de bancos. Mas, felizmente, nunca tivemos problema nenhum. Quando se falava muito, nos jornais, que os bancos cortavam os créditos, nós nunca tivemos problema nenhum de crédito. Nunca.

Mas porquê?
É uma empresa antiga, é uma empresa que cumpriu sempre…

É uma empresa mais que centenária e familiar, não é?
Exatamente. Conhecem as pessoas e isso é muito importante.

E a estabilidade dos dirigentes da empresa, dos líderes da empresa…
Eu costumo dizer que as empresas são ricas e os empresários são pobres. Com isto, penso que resumo [tudo]. Nós não tiramos lucros das empresas: o que geram é para investir.

É muito interessante porque  um dos problemas da subcapitalização das empresas era haver empresários ricos com empresas pobres.
E nós somos ao contrário.

29154069E mantêm essa linha.
Enquanto eu for vivo e estiver à frente do grupo, não faço de outra maneira.

É a terceira geração à frente deste conjunto de empresas.
Sou a terceira geração, exato.

E já tem a quarta a ser treinada.
Já tenho a quarta, já.

Fale-me só rapidamente disso. São os seus filhos?
Não. Não são filhos, eu não tenho filhos. O outro meu irmão também não tem. São netos do meu irmão mais velho e da minha irmã. São dois irmãos, por acaso: um formado em Direito e Gestão também e ela formada em Gestão. Andam agora a fazer uma viagenzinha e em janeiro, possivelmente, vão começar.

Andam lá fora a aprender.
Andam a aprender. Já andam há dois anos. E agora, em janeiro, vão assentar arraiais no grupo, parase dedicarem, precisamente, ao grupo.

Portanto, para começar a quarta geração a entrar no negócio de família com essa estabilidade.
Exatamente.

Perspetivas de emprego.
Vai crescer. E tem crescido sempre. São cerca de 2800 pessoas e vai crescer. Eu penso que mais dois anos e passaremos as 3200 pessoas.  Estou a falar em Portugal. Já não falo no investimento de Espanha, porque esse vai arranjar aí 400 a 500 pessoas.

Isso é uma coisa de raiz, nova.
Exatamente.

Portanto, a perspetiva é de expansão nos próximos tempos.
É. Temos também um investimento pensado agora em Moçambique mas não está nada ainda decidido a 100%. Mas, possivelmente, iremos fazer alguma coisa.

Mas por causa de algum risco de segurança ou não?
Sempre isso. Sempre isso. Uma das coisas que preservamos são os seres vivos. E como seres vivos que são temos o problema, sempre, de não haver riscos com problemas de guerrilhas e disto e daquilo, porque as aves não podem sofrer: naquele dia e àquela hora e àquele minuto têm de ter a comida. Porque senão ou não crescem ou não põem ovos.

 

Fotos: Reinaldo Rodrigues / Global Imagens e Grupo Valouro