“A Logoplaste está no top 10 das empresas de plástico rígido em termos mundiais”

É a terceira maior empresa transformadora de plástico rígido da Europa e está entre as dez maiores do mundo. A internacionalização foi a pedra angular para atingir a dimensão que tem hoje e o sucesso da sua expansão passou pela criação de um conceito diferente: o hole in wall, em que a Logoplaste instala as suas unidades dentro das fábricas dos seus parceiros para criar embalagens inovadoras e personalizadas

 

29531477Entrevista conduzida por António Perez Metelo

 

Filipe de Botton é o CEO da Logoplaste, uma empresa com 23 anos e um crescimento colossal, desde a primeira hora. A Logoplaste monta cadeia produtiva dentro das fábricas dos seus clientes e parceiros, não é?

A Logoplaste iniciou-se em 1976, portanto, tem praticamente 40 anos de vida. Mas tem, de facto, 23 de internacionalização. Iniciámos em 1992 esta aventura de internacionalizar a Logoplaste. Porquê? Porque, na altura, o mercado português estava a ficar saturado deste conceito. Quando a Logoplaste iniciou [a internacionalização] foi com esse conceito, justamente, de fazer as fábricas junto ou dentro das fábricas dos clientes. Neste momento, a Logoplaste tem 62 fábricas em 17 países. Portanto, eu penso que seremos a empresa industrial portuguesa mais internacionalizada.

 

Em quatro continentes: Europa, América do Norte e do Sul e Ásia.

E Sudeste Asiático, exatamente, onde vamos desde o Vietname, Ho Chi Minh até ao Canadá,  Vancôver. Costumamos dizer, na brincadeira, que cobrimos 16 fusos horários.

 

Mais do que a antiga URSS, que tinha 11.

Mais do que a antiga URSS. E colocámos Portugal no meio, transformámos Portugal, claramente, numa centralidade que não era própria.

 

Porque decidiram dar esse salto?

O salto foi natural. Ou seja, foi muito uma reação, porque em 1990-91 falava-se muito da invasão espanhola, havia os espanhóis que compravam tudo em Portugal. De facto, foi uma altura em que houve uma grande azáfama de investimentos espanhóis em Portugal. E foi um pouco como uma reação: “Mas espera aí! Se eles estão a vir para cá, porque é que nós não havemos de ir para lá?” Portanto, foi um pouco um reação, uma atitude reacionária que tivemos em 1991. Iniciámos com a primeira fábrica…

 

Onde?

Em Espanha, na região perto de Toledo, numa fábrica ligada às bebidas carbonatadas. Depois, fizemos uma segunda fábrica nos Pirenéus ligada às águas minerais. Portanto, fomos desenvolvendo o nosso percurso em Espanha…

 

O que fazem é desenvolver toda a produção de embalagens duras, digamos, em plásticos…

Tudo o que seja garrafas para água e garrafas para produtos lácteos –  leites, iogurtes – para óleos, detergentes, produtos de limpeza, lubrificantes, cosmética – champôs, corantes de cabelo… Para tudo isso.

 

PT_Barreiro

As fábricas Logoplaste são instaladas dentro das unidades fabris dos seus clientes e criam embalagens “por medida”

E essa primeira experiência,na região de Toledo, correu bem?

Essa primeira experiência foi extraordinária porque correu muito mal e foi muito importante. Quando  definimos o processo de internacionalização a nossa principal preocupação foi: vamos fazer as coisas de forma a que, se correr mal, não tenha impacte no negócio em Portugal. Talvez isso seja uma das primeiras lições sempre que se inicia um processo de internacionalização, que é defender sempre o mercado em que estamos. Mas hoje acho que o conceito é completamente diferente. Há 23 anos, quando se pensava numa empresa, pensava num espaço nacional. Hoje o espaço mínimo que se deve pensar  quando se pensa em lançar uma empresa, ou qualquer atitude empreendedora, é a Europa. Ou seja, o mínimo do nosso mercado deve ser a Europa.

 

Um mercado integrado.

Completamente. Não vale a pena pensar de outra forma porque estamos logo a nascer coxos.

 

Mas superaram esse primeiro mau [resultado].

Superámos aprendendo, ou seja, percebendo, por exemplo, que a estratégia estava incorreta, que a organização estava incorreta…

 

E corrigiram isso ou tiveram de fechar?

Acabamos por fechar porque o cliente teve ali um, utilizando uma palavra inglesa, mismatching conceptual, ou seja, nós fornecíamos as garrafas mas ele não nos pagava. Havia  uma certa atitude de incompreensão. Portanto, fechámos, continuámos a perseverar, e hoje a Espanha é um mercado extremamente importante para a Logoplaste.

 

E tem várias fábricas.

Neste momento, temos sete fábricas em Espanha, portanto, é um mercado claramente forte para a Logoplaste. É um mercado estabilizado e onde, quando iniciámos o nosso processo, o papel da banca era fundamental. Iniciámos com a banca portuguesa, na altura. Depois, passados uns anos, começámos a trabalhar com a banca espanhola,  o Banco Popular foi um banco que nos ajudou. E nós percebemos que  se queríamos manter o nosso processo de internacionalização, e hoje Portugal representa pouco mais de 12% do volume de vendas da Logoplaste…

 

Houve uma transformação, de facto, qualitativa.

A Logoplaste está em Portugal mas é uma empresa internacional, ou seja, não somos uma empresa que trabalha só em Portugal. E, portanto, é fundamental trabalhar e ser apoiado e criar uma relação de longo prazo com bancos internacionais e com bancos não portugueses.

 

Para tesouraria e para investimento também?

Para tudo. Não é que os bancos portugueses não sejam importantes – os bancos portugueses têm sido inexcedíveis a apoiar, de uma forma geral, todos os bons projetos e todas as empresas e as PME que existem em Portugal, desde que haja projetos válidos. Mas para conseguir perseverar, trabalhar, atuar nos mercados internacionais é fundamental ter uma parceria ou uma relação de longo prazo com um banco internacional. E porque é importante? Porque os nossos clientes internacionais gostam de saber que uma empresa portuguesa também está apoiada por bancos internacionais. Dar uma noção mais cosmopolita à própria empresa é fundamental.

 

Na década de 1990, a par do lançamento da sua estratégia de internacionalização a Logoplaste iniciou a construção da nova sua sede, em Cascais, onde se mantém até hoje.

Na década de 1990, a par do lançamento da sua estratégia de internacionalização a Logoplaste iniciou a construção da nova sede, na Estrada da Malveira da Serra, em Cascais, onde se mantém até hoje.

O volume de negócios, em 2014, atingiu os 480 milhões de euros. Tem dois mil funcionários, de 32 países. Isto quer dizer que os vossos funcionários, nas 62 fábricas, são pessoas muito especializadas, além de [haver] uma unidade de research que terá de ser muito forte para sustentar tudo isto.

Quando pensámos em internacionalizar a Logoplaste, tivemos de pensar qual poderia ser a nossa vantagem competitiva. Porque internacionalizar ou lançar um investimento é muito interessante mas desde que pensemos um pouco, olhemos para o mercado e pensemos qual é a nossa vantagem competitiva. Quando em 1992 pensámos: “Temos de sair de Portugal”, pensámos: “Como é que vamos poder sair de Portugal?” Os nossos dois principais concorrentes – uma empresa austríaca que vende cerca de 3200 milhões de euros, portanto, seria 3,2 biliões [na perspetiva americana]; e uma empresa americana, que vende também cerca desses mesmos três biliões -, que eram já, um pouco, as referências…

 

E a Logoplaste em terceiro, com cerca de 500 [milhões]…?

Não. A Logoplaste não existia em 1992.

 

Não, não. Mas, digo eu, agora.

Hoje, não. Hoje, a Logoplaste está no top 10 das empresas de plástico rígido em termos mundiais. Portanto,  somos um ator nas duas ou nas três grandes regiões onde estamos, que são as Américas, como um todo, a Europa, de Portugal à Rússia (Rússia, Ucrânia, República Checa, Polónia), portanto, abrangemos toda a Europa de Leste, além de toda a Europa ocidental; e no Sudeste Asiático. A grande referência que temos de ter é como nos podemos diferenciar. E foi aí que apostámos em 1992, em algo que nós temos de extraordinário em Portugal que é a capacidade de pensar diferente. Ou seja, os portugueses, de uma forma geral, são tão ou mais profissionais, tão ou mais competentes do que qualquer colaborador internacional ou não português. E depois temos uma grande capacidade que é saber pensar de forma diferente, ou seja, estarmos constantemente a repensar…

 

Mas porque é que isso não se espalha mais no tecido empresarial em Portugal?

Eu penso que se está a espalhar. Penso que, cada vez mais, o que nós vemos é que as empresas hoje são feitas e têm vindo a ser lançadas por uma geração que é extraordinária. A nova geração dos 30, 35, 40 anos tem uma preparação absolutamente extraordinária.

 

Sem precedentes, não é?

Sem precedentes. Acho que todo este aspeto de hoje trabalharem em Portugal e amanhã trabalharem fora é o aspeto da mobilidade que, a mim, não me preocupa. Porque aquilo que nós reparamos é que as pessoas voltam para Portugal. Aliás, neste momento estou relativamente ligado ao tema da diáspora, como o Conselho da Diáspora [Portuguesa], e o que vemos é que os portugueses que estão fora – e há cerca de cinco milhões – estão preocupados em “como é que nós podemos ajudar o nosso país?” Às vezes é falta de meios, falta de carinho e falta de apoios.

 

Volto à minha questão porque é importante. Continuam a investir em novas ideias e processos.

Vendemos cerca de 500 milhões de euros por ano e investimos cerca de 1,3% a 1,5% da nossa faturação naquilo que se chama inovação, ou seja, investigação e desenvolvimento mas com aplicações práticas. Em Portugal, somos muito bons a descobrir a molécula. Mas mais importante do que a molécula é o fármaco. E na Logoplaste preocupamo–nos em conseguir descobrir soluções inovadoras ao longo da cadeia de valor…

 

Descobrir a molécula é necessário mas não é suficiente. Tem de se avançar depois para o fármaco.

E isso é que é importante. Mais do que descobrir a molécula estou preocupado em reorganizar as moléculas para descobrir novos fármacos.

 

Já é uma coisa consagrada a nível mundial a capacidade dos portugueses de improvisar, o desenrascar. Mas aqui…

Desculpe interrompê-lo. Acho que é o pior adjetivo que se pode dar a Portugal, o desenrascar.

 

Eu sei, eu sei. Mas eu ia aí. O que é preciso é transformar isso em pensamento criativo mas ordenado, devidamente estruturado.

Exatamente. E nós sabemos fazê-lo. Porque, mais uma vez, os portugueses são profissionais, são competentes e depois têm o lado latino da criatividade, que faz a diferença.

 

29531482AEstá preocupado com o abrandamento da economia mundial, que se verifica e que está anunciado para os próximos tempos?

Não estou preocupado porque acho que qualquer empresa tem de saber encontrar as oportunidades, mesmo em situação de abrandamento. E se olharmos, desde 2008 até 2015, anos ditos de crise, a Logoplaste não parou de crescer e bastante. Se olharmos para a percentagem das exportações sobre o PIB em Portugal, nos últimos dois anos passaram de 30% para 40%.

 

41%

Ou 41%. É fantástico, é extraordinário o que Portugal fez! O que é mais importante é não estragarmos a estabilidade que criámos em Portugal e darmos algo que é fundamental para as empresas, para os gestores e para os empresários, que é previsibilidade. Ninguém vai investir num quadro de falta de previsibilidade e de enquadramento.

 

Eu estava a perguntar-lhe em termos mundiais. Por exemplo, tem grandes investimentos no Brasil e a situação está muito difícil.

Nós estamos no Brasil, temos uma grande operação no Brasil…

 

E sofrem com isso?

Claro que sofremos no Brasil.

 

Porque se vendem menos, também as embalagens são em menor número, não é?

Exatamente. Temos é de nos saber adequar em antecipação. Há dois anos, entendemos que as coisas iam ficar difíceis, começámos a reajustar a dimensão da Logoplaste ao que ia ser a nova realidade no Brasil.

 

Que projetos imediatos? Abrir novas fábricas noutros países?

A estratégia é continuarmos a investir nos países onde estamos. Hoje estamos em 17 países e queremos tornar-nos cada vez mais fortes em duas grandes regiões, aquelas em que acredito que seja onde existe mais oportunidades – mesmo para uma empresa de embalagens como a Logoplaste -, que é a Europa como um todo, mas sobretudo a antiga Europa Ocidental e a América do Norte. A América do Norte, o México, os EUA e o Canadá são claramente  as zonas de aposta no futuro.

 

Vejo-o conceptualmente muito afastado da China. Porquê?

Porque, ponto um, não vejo ninguém a ganhar dinheiro na China. Ponto dois, não se vai para a China. Uma pessoa, em termos industriais, define algumas regiões na China.

 

Sim, sim. Claro!

Nós temos dez fábricas na NAFTA [sigla inglesa para o Tratado de Livre Comércio da América do Norte] – no México, temos duas; nos EUA, cinco; três no Canadá. Faz muito mais sentido nos próximos cinco anos eu passar a ter 20 fábricas na NAFTA do que ter duas na China. Acho que temos de nos concentrar, de nos focar e, às vezes, mais vale fazermos muito bem e continuarmos a crescer e a ganhar rentabilidade onde estamos do que estarmos a preocupar-nos em pôr mais uma ou duas bandeiras.

 

E acha que isso é possível nos próximos anos, para a Logoplaste.

Acredito. Para a Logoplaste e para a maioria das empresas portuguesas, acredito que seja possível ganhar cada vez mais quota em termos internacionais.

 

Fotos: Gerardo Santos / Global Imagens e Logoplaste