Espanha pode ser uma terra de oportunidades

O segundo debate da Conferência Mercado Ibérico foi moderado por André Macedo (à esq.), diretor do DN, e contou com Enrique Santos, da CCILE, João Rui Ferreira, da Apcor, e João Fugas, da CUF Químicos

O segundo debate da Conferência Mercado Ibérico foi moderado por André Macedo (à esq.), diretor do DN, e contou com Enrique Santos, da CCILE, João Rui Ferreira, da Apcor, e João Fugas, da CUF Químicos

Espanha é uma potência económica em vários setores, mas se Portugal estiver atento e se se aplicar consegue ser mais competitivo. A Conferência Mercado Ibérico revelou dois casos em que empresários portugueses conseguiram aproveitar as oportunidades e distanciar-se da concorrência: na cortiça e nos químicos, nomeadamente, na produção de cloro e seus derivados.

Sob o tema “As Oportunidades Cá e Lá”, o segundo painel de debate, moderado pelo diretor do DN, André Macedo, contou com a participação do presidente da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Espanhola (CCILE), Enrique Santos, e dos responsáveis da CUF Químicos Industriais e da Associação Portuguesa de Cortiça (Apcor).

Durante muitos anos, Portugal e Espanha estiveram de costas voltadas. “Agora estão a olhar-se nos olhos e é preciso olhar com muita atenção porque tudo do lado de lá é quatro ou cinco vezes maior do que em Portugal.” O aviso foi deixado por Enrique Santos, presidente da CCILE e constata um facto. Mas isso não impede que haja casos em que Portugal leva a melhor e até atrai mais players. É preciso é ter visão estratégica e aproveitar as oportunidades.

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João Rui Ferreira, presidente da Associação Portuguesa de Cortiça (Apcor), referiu dados relevantes do setor

Isso mesmo foi o que fez o setor corticeiro nacional, em que os papéis dos dois países se inverteram e já não é Portugal que exporta matéria-prima ou produtos semiacabados de baixo valor para serem depois transformados no exterior. “Hoje importamos cerca de cem milhões de euros de Espanha, o que representa 80% do total das importações do nosso setor. Cerca de 95% destas importações são matéria-prima”, disse João Rui Ferreira, presidente da Apcor. O responsável considera que Espanha perdeu “o comboio do de-senvolvimento tecnológico, do know-how, do empreendedorismo” tão característico da região corticeira nacional. E agora são as empresas portuguesas que procuram fazer aquisições, fusões ou parcerias para obter marcas espanholas, sem alterar a sua designação, para manter a tradição. Ainda assim, a união faz a força e “a Península Ibérica é responsável por dois terços da área mundial de sobreiro e 80% da produção mundial de cortiça”.

No caso dos químicos, a CUF detém uma quota de 3,8% da produção mundial na área dos poliuretanos (isolantes térmicos) e é o terceiro maior produtor de cloro a nível ibérico, afirmou João Fugas, administrador da empresa. Sendo Espanha um dos países do mundo com mais piscinas, segundo o responsável, o mercado espanhol é aquele onde a CUF mais quer crescer. Até porque a empresa vai à frente na corrida para a reconversão da produção de cloro com tecnologia de membranas em vez de mercúrio, cuja implementação a UE impõe até 2017.

Mas há outros planos em que Portugal não fica a perder. Enrique Santos, da CCILE, afirma que, “neste momento, Portugal é mais competitivo do que a Espanha em termos fiscais”. E fala dos casos de deslocalização de empresas de Espanha para Portugal – como aconteceu com a Pescanova, que se fixou em Mira – ou da debandada dos empresários reformados para o lado de cá da fronteira, porque os impostos são mais baixos.

Para o responsável, a importância recíproca é inegável. “O comércio bilateral anual nos últimos dois anos foi de 28 milhões de euros”, frisou, “dos quais 20 mil milhões são vendas de Espanha para Portugal e cerca de nove mil milhões de Portugal para Espanha”, disse.

 

Tem a palavra o painel de oradores:

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“É óbvio que faria sentido uma política fiscal mais concertada entre os dois países. Neste momento não existe por causa da instabilidade política em ambos os países.”

Enrique Santos, Presidente da Câmara do Comércio e Indústria Luso-Espanhola

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“Espanha entrou em cena em 2002, quando precisámos de crescer com algum significado e precisávamos de ter uma unidade de produção próxima.”

João Fugas, Administrador Executivo da CUF Químicos Industriais

 

 

“Portugal e Espanha são dois países ligados no setor da cortiça, desde logo pelo território: não tem fronteiras. Há uma continuidade a nível do montado de sobreiros.”

João Rui Ferreira, Presidente da Apcor

 

Texto: Adelaide Cabral
Foto: Pedro Granadeiro / Global Imagens